segunda-feira, 23 de outubro de 2017

AOS OLHOS DE PAULA OZ - II



O que seriam das palavras sem corpo? E o que seria da escrita se as palavras não a ouvissem?
Aqui há vida, é vida que desabrocha nesta obra, sendo assim as palavras vivem, respiram, amam, sorriem e choram!

Ao desfolhar cada página deste livro, senti a autora. Mónica Gaiola é capaz de transmitir os sentimentos na sua prosa poética, porque a vive em pleno, nunca esquecendo a essência pura e singular dos astros metafóricos, que a caracterizam e partilham emoções como o amor, a amizade, a família, a saudade
e a felicidade, a esperança e o milagre.´

Bastante patente nesta obra, um ondular emocional:
Milagre – ser mãe
Amor – a expressão do corpo
A luta diária – depressão, saudade, nostalgia e força
Paixão – o desejo
Fantasia – o encontro e o desencontro
A mente – o tudo e o nada
A vida – o mundo

Há a luz silenciosa da mente, a realidade do coração, o lirismo e o cântico da palavra. A existência do abismo, da dor, a morte que renasce com esperança! O silêncio e a VOZ.

O primeiro pensamento que me aflora no ser ao evocar Mónica Gaiola é:
Amor universal e humildade.

Toda a sua escrita é reflexo dos olhos da alma, coroada por uma inspiração invulgar e um verbo extraordinariamente lapidado e recheado de sabedoria. A autora é um poema no coração do mundo!

Sinto-me nesta obra a mulher em muitas mulheres, a profundidade do espírito em descoberta, abro portas no céu com asas abertas.
Recordo a minha infância
Abraço a amizade
E por fim sonho...

Uma obra-prima digna de ser sentida, lida e relida!

Desfrutem as palavras de Mónica Gaiola, para ofertar à vossa vida, um sopro
mais leve, a sabedoria, a luz que nos alenta e com mais respostas às incógnitas e com mais encontros aos desencontros.

"Quanto fui, quanto não fui, tudo isso..."

(Fernando Pessoa)


Para o livro:


Entre o Sonho e o Abismo
- a vida –


Mónica Gaiola

domingo, 22 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

O QUE A MINHA CANETA ESCREVEU não é apenas um livro do MANUEL MACHADO com poemas  selecionados e um projeto  bem elaborado pelo coordenador da Coleção, STATUS QUO, Emanuel Lomelino.

O livro é um portal que nos leva para passear por algumas horas inebriados pela boa escrita e diversidade dos temas. Ora com dor, ora com amor, ora olhando para dentro de si, ora com saudosismo, mas sempre transbordando de emoção.

E foi em uma tarde de sábado ensolarado e quente em Lisboa que conheci o autor e obra no lançamento do seu primeiro livro. Só isso já seria o suficiente para discorrer sobre a emoção que todos nós, autores, sentimos ao publicar o nosso primeiro "filho". Sei bem o que significa esse momento e apenas poderia estar sendo solidária, mas fiquei bastante satisfeita com o que li e me fez admirar e divulgar o autor e esperar por mais.

Além disso, deparo-me com Alice Vieira, apresentando o livro que por si só já havia me encantado. Estava ali, olhando para uma das poetisas mais consagradas e que no lado de lá do oceano, por muitas vezes me fazia mergulhar  inebriada em suas palavras. É, ela estava ali, bem perto para uma aproximação e claro, ser bajulada pela fã, que surpreendeu-se e passou a admirar ainda mais, pela gentileza, delicadeza e imensidão. Não só de sua obra, mas do seu ser. E levo os ecos de suas palavras, que com uma simplicidade sem igual, mostrou e iluminou caminhos. E como se não bastasse, amigos que curto, e acompanho no facebook, saíram da rede social e me acolherem com tanto carinho e atenção. Foi um encontro bem agradável e divertido, que me fez pensar, no quanto existem pessoas tão queridas, e que sem esse contato virtual, talvez fôssemos privados de suas presenças e conhecimento. Isso sem contar com a dose extra de emoção, que instalou-se e transbordou na poesia, na música e no olhar de todos os presentes.

Foi apenas uma tarde de sábado, que poderia ser como tantas outras iguais, mas onde a arte, a sensibilidade, a vida, resolvem se apresentar ao mesmo tempo no palco para brilhar, só nos resta aplaudir de pé e reter na lembrança tão boa sensação, voltando a casa, com a alma radiante.

Neste dia, o sol brilhava e aquecia dentro do museu/biblioteca onde a vida marcou um encontro, convocando ao mesmo tempo pessoas muito especiais que fazem a diferença onde quer que estejam.

E sigo ainda sorrindo, dias depois, ainda com o coração aquecido.

DRIKKA INQUIT

sábado, 21 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO - XV

Para alfabetizar letrando

Ser alfabetizado não é ser livre; é estar presente e ativo na luta pela reivindicação da própria voz, da própria história e do próprio futuro.
Henry A. Giroux

O livro é passaporte, é bilhete de partida.
Bartolomeu Campos Queirós

Durante muitas décadas, e já na República do Brasil, a alfabetização, principalmente para as crianças e para os adultos das classes populares foi vista, pensada  e desenvolvida através de métodos tradicionais e de práticas escolares que estavam centradas numa concepção que limitava a alfabetização à idéia de uma determinada aquisição do código linguístico que passava unicamente pelo uso da cartilha e da palavração sem sentido: “o dente do elefante” , “Eva viu a uva”, “o coelho come repolho”... Quem foi alfabetizado com a cartilha “Caminho Suave” talvez não lembre, mas num dos exercícios - para escrever sobre o “n” pontilhado, podia ser lida a seguinte frase ao lado da letra: “A fumaça da chaminé do navio que o vento juntou.”   Quando lançada em 1948, a cartilha, que adotava o método silábico (das “famílias”), foi uma grande novidade, pois trazia imagens associadas à sistematização das famílias silábicas.  Não se pensava ainda na aprendizagem de frases e textos que se aproximassem das realidades culturais das crianças ou dos adultos. Só tempos depois, nos anos sessenta, com Paulo Freire e a “educação libertadora”, é que  em termos didáticos, irá surgir no panorama nacional, um novo paradigma  metodológico,  progressista e transformador, do qual  vão emergir perguntas que não vão mais querer calar: Alfabetizar quem¿ Alfabetizar para quê? Alfabetizar por quê?

E nessa nossa história da alfabetização, que é passado e ainda presente, foram muitos os governos que negaram o importante papel político e cultural da alfabetização no contexto da educação popular. Jogando para debaixo dos tapetes e mesas dos gabinetes de determinados grupos poderosos a necessária e urgente responsabilidade social de alfabetizar a população brasileira, adotou-se como prática perversa e ideológica,  o mascaramento que usurpava de um expressivo contingente de analfabetos brasileiros, o legítimo e democrático acesso às práticas sociais de leitura e escrita. E isso se deu através de programas como o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), criado pela Lei 5.379 em 1967, durante a ditadura  militar.  E quem foi criança nas décadas de 60 e 70 deve ter ouvido piadas como: “ - Vou te mandar pro Mobral.”, “chiste” que bem representava a ineficiência do programa que tinha como principal objetivo a alfabetização funcional de jovens e adultos.

Já na década de 80 não poderíamos deixar de ressaltar o pioneirismo e a importante contribuição das pesquisas de Emilia Ferreiro e Ana Teberoski sobre os processos de aquisição da linguagem escrita em crianças pré-escolares, um divisor de águas no campo da teoria e da prática na Alfabetização. A partir das teorias psicolinguísticas e através da perspectiva da epistemologia genética piagetiana, Ferreiro e Teberoski, trouxeram relevante estudo sobre o processo assimilativo das crianças, tanto nos aspectos funcionais quanto nos aspectos estruturais da linguagem escrita.  E esses estudos também trouxeram aos educadores o entendimento de que a alfabetização, para além de ser a apropriação de um código linguístico, envolvia um complexo processo de elaboração de hipóteses sobre a representação linguística.

Com a fundamental contribuição de Paulo Freire para alfabetização de adultos e com as novas pesquisas desenvolvidas por Ferreiro e Teberoski, longe dos reducionismos do método da silabação e palavração sem sentido, a alfabetização passa a ser compreendida como campo de complexidades, que não mais exclui do processo de ensino-aprendizagem da linguagem escrita a leitura e, sobretudo, a fala.  Pois para o aprendizado da escrita, é necessário propiciar uma descoberta básica muito bem descrita por Vygotsky (1989), a de que “se pode desenhar, além de coisas, também a fala. Foi essa descoberta, e somente ela, que levou a humanidade ao brilhante método da escrita por letras e frases”. Daí a grande necessidade do processo alfabetizador ser trabalhado com base na leitura e na fala, seja da criança ou do adulto. Daí também a necessidade de se alfabetizar letrando.


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE - IX

O EXERCÍCIO DA ESCRITA: À PROCURA DA PALAVRA CERTA

Falar sobre a escrita é sempre um desafio. Embora, o meu ofício quotidiano passe por escrever os meus sonhos, angústias, desejos, reflexões do meu itinerário enquanto ser deste universo. 

Quero desde já agradecer ao Kupaluxa que por meio do Quive endereçou este convite. Não é todos os dias que conversamos sobre a escrita e seus dilemas. Quando há algumas semanas abordoaram-me sobre esta mesa “redonda” não hesitei, mas cogitei com os meus botões em relação a esta hercúlea tarefa de pensar a literatura. 

O adiamento em virtude do Adelino Timóteo estar na capital e ser um meio de conhecer este poeta das terras do Chiveve, serviu de escape para revigorar a minha ideia da palavra lida e escrita, embora, não tivesse recebido o tema para o nosso debate aberto. Mas, passado dias, vi o cartaz com muitos “likes” a ser partilhado por confrades da mesma trincheira e amigos.

Devo sempre vincar que Moçambique é um país de grandes referências na literatura seja em prosa ou poesia. 

Para iniciar estas minhas breves palavras vou citar um autor que tenho muito gosto em ter conhecido a sua escrita. Não teve a sorte de ganhar o Nobel, mas continua a ser esse farol que alguns críticos literários acham que houve injustiça. 

Jorge Luís Borges, escritor argentino com muitos cruzamentos na sua essência de ser. Como diz o autor: “Sempre imaginei que o paraíso seria algum tipo de biblioteca”. Esta frase remete-nos a leitura, alimentar o nosso desejo de conhecer o mundo em que vivemos. Não há escrita sem leitura. O autor do livro “Fricções” é um exemplo dessa forma de pensar. A partir de uma enciclopédia o autor transporta-nos a um mundo imaginário com a qual constrói o seu texto. 

O autor invoca a biblioteca como paraíso. Logo, a leitura aparece como um elemento fundamental para a palavra certa. Mas, não é sobre fricções que estou aqui. “Para escrever é preciso ler e saber onde se encontra a essência dessa forma de expressão”.

A minha palavra certa passa por muitas influências (nacionais e estrangeiras). Daí que existem autores que não posso deixar de mencionar na minha viagem ao mundo a escrita: Rimbaud, Baudelaire, Pessoa, Knopfli, Alba, Kavafis, entre outros para falar de poesia, meu campo de eleição. 

Em função de cada projecto em manga, sigo a dinâmica de certos autores. O último projecto acabado teve como marcos: Francis Ponge e António Gamoneda. Voltarei a Ponge nos próximos parágrafos.

Para responder ao tema “O exercício de escrita: à procura da palavra certa!” Tenho de regressar a Rainer Maria Rilke  e a sua resposta a um jovem poeta.  

Diz Rilke na resposta ao jovem: “Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso” (Rilke, 2009:9) .

Ou seja, o que nós trazemos a este universo literário? Será que deixar de escrever o mundo deixará de ser esta Odisseia? Para Moacyr Scliar, o acto de escrever é uma continuação do acto de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

Assim, percebo que não podemos ter uma escrita sem uma leitura continuada, sem aprimorar o nosso desejo ardente da palavra, a métrica, a metáfora e outros elementos que nos podem conduzir ao óptimo de um texto em prosa ou poesia.    Afirmei antes que voltaria a Ponge  porque a estória do seu livro Savon é interessante. Eu fiquei cerca de 4 anos para tirar os ensaios poéticos e não posso deixar de ficar de alguma forma satisfeito porque permitiu-me ter alguma maturidade estética.

Ponge em carta a Jean Paulhan – amigo e editor Ponge, quando começou a escrever Le Savon (Sabão), partilhou sua angústia e dificuldade em terminá-lo. Chegou a pensar em abandoná-lo, mais de uma vez, e persistiu escrevendo e revendo o texto durante vinte e cinco anos (de 1942 a 1967, data de sua publicação). É facto, que alguns poetas insistem em alguns escritos sem saber bem o porquê. O que é da ordem da pulsão faz seu espaço no “que não cessa de não se inscrever”. Ou seja, no que pode ser nomeado como algo da ordem do impossível, que insiste.

Jacques Derrida disse que Ponge assumia, neste escrito, uma perda não declarada até então. Pois, o que ele falava havia sido “esquecido” por muitos de seus contemporâneos. Hoje podemos remexer nestas letras, e pensá-las como um desejo de testemunho. E, ainda podemos perceber que o poeta escreveu um texto para além do poético. Algo que, em meio ao impossível de se dizer, fizesse ruídos em orelhas torturantes .

A palavra em acto na intenção de produzir uma luz, que possa fazer buraco na memória. Assim estamos na trilha do real, e do faltoso; o que não pode ser dito todo.

Como podemos perceber, para o autor o texto não estava ao nível do que pretendia tendo levado cerca de 25 anos para atingir o seu desejo.

“(…), quando pensamos, quando escrevemos, somos habitados pela presença. Não só a presença física dos que nos acompanham, mas a imponderável presença do invisível: das vozes que ouvimos, dos poetas e escritores que lemos, de tudo aquilo que nos habita e se demora em nós, mesmo que não nos apercebamos. Estar a sós diante da página em branco nunca é uma verdadeira solidão, para combater um certo lugar-comum que persiste. É sobretudo um acto de escuta e de abandono, em que procuramos esse rio interior ou a voz que nos persegue, aquela que procura a sua fenda, a fissura, por onde entrar e fazer-se corpo, linguagem, um modo de se dizer e de chegar à fala, atravessando os tempos”, Maria João Cantinho (2017) .

É necessário ter prazer ao escrever, deixar o sentimento, o gosto pela palavra, pelos sons, ritmo. Roland Barthes (1996:9) fala do prazer do texto. “Um texto lido com prazer significa que foi escrito com prazer. Mas, o prazer de escrever não assegura o prazer do leitor no acto de ler, pois a recepção do texto dependerá de cada um. É preciso haver, haver então um jogo de entre escritor e leitor, um espaço de abertura fornecido pelo narrador que permita a entrada do leitor no texto”.

No acto da escrita exige inspiração e transpiração. Ao escrever, busca-se eventualmente um “algo a mais”, aquilo que possa transcender o próprio escritor, aquela busca ancestral de deixar para a futura humanidade outra lembrança que não sejam filhos ou árvores.


Para concluir, a minha experiência tem demonstrado que o texto fala quando já está acabado. Há uma certeza em nós, um frio no estômago, umas lágrimas que passeiam de satisfação pela íris.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

Não fazer nada em alguns momentos é a melhor postura a se tomar. Não fazer nada e apenas observar. O vento bailar. O tempo passar. A vida conduzir.

E a partir daí tudo começa a se renovar, acontecer, e pessoas se encontram e te convidam a seguir por novos caminhos, onde as ideias anteriores perdem força e tantas outras mais autênticas e até mais viáveis ganham forma. E nesse instante, reformulamos situações acomodadas que se incrustam em nosso cotidiano e principalmente em nosso espaço virtual, em que nos convidam e excluem a seu bel prazer, vamos ignorando, aceitando, e um dia, em que não fazemos nada, elas começam a incomodar e percebemos que a vida reivindica uma tomada de postura.

Não fiz nada para mudar minha postura profissional que, há mais de 27 anos, vou lapidando, sem mudar a essência. Transparência, profissionalismo, habilidade e competência foram as palavras gravadas e repetidas na busca da satisfação e realização a cada trabalho, nesses tantos anos de trocas, vivências e aprendizado.

E aprendi que devemos sempre estar atentos a mudança de ventos e humores, principalmente quando se trata de um ambiente em que a vaidade, o ego e a necessidade em se fazer destacar é quase uma conduta implícita seguida por muitos que, particularmente, discordo, mas sigo respeitando o direito de cada um ser o que é, e que na maior parte das vezes assisto as respostas da vida que, com coerência e justiça, vai colocando os pingos nos is e cada um em seu devido lugar.

Não fazer nada, em determinadas situações, embora pareça retirada de campo, é apenas mudança estratégica para firmar posicionamentos e expandir a capacidade de resiliência, e não compactuar com o que se torna incômodo e insensato.

Aprendi a pedir "permissão" com contrato assinado, quando o projeto de terceiros me dá oportunidade de produzir, divulgar e conduzir. E diante da gentileza dos que prestigiam, apoiam, se envolvem, participam, na maioria das vezes os resultados superam as expectativas. E se por um lado me engrandece, por outro, percebo nas entrelinhas a insegurança de uns e outros em perder espaços e adeptos para a concorrência irreal e inexistente, como fantasma criado que persegue e assombra.

Mas, que eu saiba, o sol está aí e brilha para todos. E quando a chuva cai, também não poupa ninguém. E diante disso só os incompetentes, dissimulados, interesseiros, podem até sentir-se inseguros com a grama do vizinho que acham ser mais verde, e nem por isso, deixam de circular por aí e angariar novos adeptos, desavisados e ingênuos. E como disse, todos têm o direito de fazer e ser o que quiserem, e a vida vai dizendo quem sim e quem não.

Eu apenas observo, deixo o vento bailar, o tempo passar, a vida conduzir e... não fazer nada.

DRIKKA INQUIT

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

EU FALO DE... PEQUENO BALANÇO SOBRE 2017


Num pequeno e raro momento de pausa, tive a ousadia de entregar-me à reflexão e, quase em choque, dei-me conta que estamos prestes a despedir-nos de mais um ano civil. E que ano foi este! Com pouco mais de dois meses pela frente e ainda alguns projectos por terminar e compromissos para respeitar, posso fazer um balanço do que me aconteceu em 2017.

Foi um ano que começou cheio de motivação pelo sucesso do meu blogue de divulgação de poesia lusófona (TOCA A ESCREVER), com o ponto alto a acontecer, em Junho, aquando do início da parceria com a IN-FINITA, e o impacto que a mesma originou, tanto ao nível de tempo que passou a exigir-me, como ao nível de adesão que este passo suscitou, principalmente no outro lado do Atlântico. E essa adesão foi de tal forma impactante que tive de adicionar, ao projecto TOCA A ESCREVER/IN-FINITA, o blogue TOCA A FALAR DISSO, dando-lhe uma roupagem diferente alargando, desse modo, o seu propósito inicial. Em simultâneo, vi confirmadas as intenções, das editoras, em prolongar os patrocínios.

Mas a parceria não se ficou por aqui e, em Setembro, tivemos o primeiro evento em Portugal com o apoio IN-FINITA, que foi um sucesso e para sempre ficará marcado na história do nosso percurso.

Num outro patamar, vi-me envolvido em dois projectos de uma editora: a coordenação de um concurso literário e a organização/elaboração de uma colecção de livros de bolso... Já escrevi tanto sobre estes dois projectos que só me resta dizer que foram meses de intenso labor, com pontos altos e alguns dissabores mas com a satisfação de ver reconhecidas as minhas capacidades, sentido de missão e profissionalismo.

Mais tarde fui confrontado com uma estreia ao ser convidado para dar uma palestra sobre o significado de ser-se poeta nesta era digital... Não posso deixar de confessar que este convite apanhou-me de surpresa porque, por norma, são poucos os que se dispõem a ouvir-me falar devido aos meus modos pouco, ou quase nada, "politicamente correctos". No entanto, supresa maior foi o convite que se seguiu para defender o género poesia integrado num painel composto por mais dois nomes importantes da cena literária nacional; Isabel Stilwell e Jaime Rocha. Seja como for e independentemente do factor surpresa, não posso deixar de regozijar-me pelo facto de, não só se predisporem a ouvir-me, como ainda se dispuseram a pagar-me para o fazer... sinal dos bons tempos?

Como disse no início deste texto, faltam pouco mais de dois meses para findar 2017 mas ainda há projectos na forja e compromissos a respeitar. Mas, sobre esses, escreverei em devido tempo.

MANU DIXIT

terça-feira, 17 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA - VIII

ALEGRIA EM DOSES

Fico impressionada com a quantidade de pessoas que hoje em dia tomam remédios para depressão. Já havia pensado nisso há algum tempo, mas nessa semana li uma reportagm sobre o assunto.

Hoje você não pode mais ficar triste, se ficar está em depressão.

Não pode ficar cansado ou irritado, nem que seja apenas por alguns motivos que o tiraram da rotina normal.

Haverá quem diga: é meu amigo, você anda muito estressado.

Se seu filho anda fazendo "trelas' na escola (que era normal antigamente) ou não está rendendo nos estudos, precisa urgente de terapia ou psicóloga, antes que seja tarde. Se não presta atenção, tem "TDAH" (transtorno de déficit de atenção), se corre muito e brinca muito, é "Hiperativo", se não gosta de brincar com os outros é "retardado", se não entende algumas coisas, até mesmo por imaturidade é "limítrofe".

Nossa, quantos rótulos! Hoje existe nome para tudo!

Fui ao médico, avaliar causas de uma enxaqueca, saí com antidepressivos que me custaram 3 quilos a mais em dois meses e continuei com dores de cabeça.

Determinei então meu tratamento: nadar todos os dias!

Adoro nadar! Coloquei as caixas dos remédios num saco e joguei-as no lixo. Não digo que não tenha mais algumas de vez em quando, mas melhorei quase que 90%.

Bem, não estou aqui a condenar tratamento nenhum, claro que alguém que realmente tenha depressão precisa ser tratado com remédios. Apenas questiono a quantidade de diagnósticos que são dados aleatoriamente. Não existe mais tristeza, preocupações, decepções, TPMS?

Quando um garoto leva um fora da namorada e fica triste durante um tempo, está com depressão?

Devemos estar alertas para isso. Tão grave quanto não tratarmos uma depressão, é tratarmos dela quando na verdade não temos, quando apenas estamos passando por dificuldades ou tristezas momentâneas, o que não é nada anormal nos dias de hoje.

Se você chega ao médico sem nada, estando até muito feliz, ele pode até perguntar: não quer ficar ainda mais feliz? E passa um remedinho para aumentar sua felicidade.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

OS LIVROS DE... ELIANA CASTELA

Eliana Castela

1.Livro “Pelos Rios ao Sabor da Fruta”

SINOPSE:
O livro traz crônicas da viagem realizada em 2015, que pretendia ser do Acre ao Ceará, mas que se estendeu até Pernambuco. Uma viagem inversa a que foi feito por nordestinos a partir do final do século XIX, quando homens e mulheres foram para a Amazônia trabalhar com a exploração da borracha ao mesmo tempo em que fugiam das condições precárias de enfrentando da seca e do descaso do Estado brasileiro. Ao longo da viagem são identificadas situações que remetem ao mesmo abandono de mais de um século atrás, bem como a mesma riqueza cultural das pessoas que habitam as regiões do Nordeste e da Amazônia brasileira.

2. Livro “Da Escrita Rupestre à Era Digital”

SINOPSE:
Livro de poemas com temas diversos.


BIOGRAFIA DA AUTORA:
Eliana Ferreira de Castela, nascida em Rio Branco, AC, é atriz com registro no MTb do RJ. poeta, tendo seus poemas publicados eventualmente em blogs, periódicos digitais e em outras mídias digitais. É uma das organizadoras, juntamente com Mané do Café, do calendário, Folhinha Poética, em formato digital. É Licenciada e Bacharela em Geografia, e especialista em História da Amazônia, pela Universidade Federal do Acre - UFAC. Mestre em Extensão Rural, pela Universidade Federal de Viçosa.

CONTACTO:
e-mail: elianacastela@gmail.com

domingo, 15 de outubro de 2017

ADRIANA FALA DE... CABEÇA DE ANTÍGONA

"Humilhação, exclusão e exílio matam. Sentir-se ferida na sua honra mata. Sentir-se duramente injustiçada, envergonhada - mata. É procurar em vão o direito perdido de viver no próprio corpo politico, o usurpado. Aos poucos eu vejo uma luz ainda que turva, ela vem do fundo do meu poço. Vou tateando aqui e ali num passo lunar de cada vez. Um slow motion de sensações redescobertas, como quem volta de um longo coma induzido. Este livro é uma celebração à vida depois da morte."
Patrícia Porto in Cabeça de Antígona

Patrícia Porto, é uma das autoras e sem duvida, ser humano  que admiro e tenho imenso carinho não só pela genialidade em que faz uso das palavras, em uma dança cadenciada, criativa, única e sempre com pinceladas de sarcasmo, ironia, rebeldia, dor, entusiasmo, coragem, humor e possui a habilidade extraordinária de estar em cada texto de forma tão iternsa e particular, que leva o leitor para viagens tão profundas, que sempre regressa transformado de alguma maneira, seja em uma forma diferenciada de olhar o mundo ou de perceber-se a si mesmo. Patícia tem esse dom, de transformar e envolver seja na escrita ou na palavra dita, o universo daqueles que gravitam ao seu redor, como leitores e ou amigos.

Não pude deixar de registrar e divulgar mais esse momento enriquecedor para nós , leitores e fãs, com o Lançamento em 18 de outubro em Niteroi, Rio de Janeiro de mais uma preciosidade que preenche a alma e nos faz despertar para um outro mundo.

Transcrevo as palavras da Editora Reformatório que sintetisa, em poucas palavras e com maestria essa obra de arte que está por vir:

"Cabeça de Antígona", de Patricia Porto que, segundo Délcio Teobaldo na apresentação do livro, "possui o manejo, tem as mãos adestradas ao ofício, mas chuta as panelas, rasga a nesga da saia a navalha, aumenta a chama a ponto de incendeio, erra a pitada do tempero. Por isso, quando me pediu que escrevesse uma orelha para este livro, reagi com ironia: “Ora, ora, Patrícia... Não te farei apenas a orelha. Te faço escuta”. Sonora escuta, porque os poemas de “Cabeça de Antígona” como, aliás, toda a poética de Patrícia Porto é de uma musicalidade que beira ao absurdo. Provoca desvario. Então, não se surpreendam que, cabocla e maliciosamente, sua Antígona se assemelhe a uma ribeirinha ancuda terçando um coco, um tambor de Mina, um samba de roda. Assim ela põe Antígona e Ogum no mesmo terreiro, e no ritmo alucinante da música! (leiam Patrícia Porto em voz alta, por favor!) "



DRIKKA INQUIT

sábado, 14 de outubro de 2017

EU FALO DE... A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA



Por ocasião da etapa de Lisboa do recente IV Encontro de Poetas de Língua Portuguesa, apresentei-me ao poeta brasileiro Luiz Otávio Oliani, cuja obra não me é, de todo, desconhecida, e até se engloba nos padrões daquilo que considero poesia com cabeça tronco e membros. A troca de palavras, que mantive com o autor, apesar de curta, permitiu-me conhecer um pouco quem está por detrás dos versos e, como gentileza gera gentileza, fui brindado com o seu livro A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA, e foi a minha leitura deste livro que despoletou a necessidade de escrever este texto.

Ter um conhecimento prévio sobre este autor permitiu-me direccionar a atenção para aspectos que, em outras circunstâncias, só me ocuparia em posteriores leituras. Talvez influenciado pelo meu gosto pela poesia de cariz minimalista, que não minimal, embrenhei-me neste livro, e a ideia que tinha sobre a concisão dos textos deste autor saiu reforçada.

Com A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA, Luiz Otávio Oliani vem provar uma vez mais (se é que mais provas são necessárias) que a poesia não precisa ser extensa e cheia de adornos para alcançar os seus objectivos e passar, para os leitores, a mensagem pretendida. Os cinquenta textos/fragmentos que compõem o livro, talvez por se assemelharem a pequenos aforismos (para não os classificar como tal), estão impregnados, tanto, de mensagens visíveis como subliminares, porquanto nenhum dos textos está definitivamente encerrado, deixando aos leitores a capacidade/possibilidade de diferentes interpretações ou desfechos. Ao longo da leitura, torna-se evidente o cuidado do autor em limar cada palavra para lhe subtrair o excesso e manter o essencial. E esta característica, por si só, revela que estamos na presença de um autor que trabalha as palavras, explorando ao máximo as alternativas que as mesmas oferecem.

Resumindo, e em poucas palavras, A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA, é um livro que recomendo sem hesitações.

MANU DIXIT

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ANDREA SANT ANNA - IV

Correndo com os lobos...

Os dias correm feito lobos... traiçoeiros, sorrateiros a nos iludir, e com fome... o tempo nos engole ferozmente. Deixa-nos por vezes, e não raramente, vestígios indignos, por outras, retalhos de sonhos. As cidades e lugares cada vez mais parecem-se com a caverna escura de Platão... O "Ensaio sobre nossa cegueira " já estreou. Nossa cegueira vem sendo sacudida com visões apocalípticas que fazem, literalmente, tudo tremer. Incrível viver nesses tempos!!! Tendo sempre sido solar e otimista, agora testemunhando o fim das coisas, a falência, os escombros, os retrocessos, as marcas de derretimento das certezas civilizatórias... Testemunhas com o peito oprimido pela dor de ver. Ver, presenciar, dói. Porém, não ver nos torna ridículos e patéticos. Somos ridículos e patéticos ainda quando vemos. Difícil deixar de sê-lo com a forja de mil anos a nos limitar em nossa ignorância. Nossa barbárie. Estupefação. Indignação. E por que não? Coragem. Vejo coragem em meio ao caos. Vejo beleza e nobrezas possíveis. Vejo poesia, enlevo e desejo também, vejo. Possibilidades de nascer da lama, como a flor de lótus, ressurgindo do nada que nos tornamos. Eis, aí. Uma esperança.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

FALA AÍ BRASIL... SÍLVIA SCHMIDT - III

ESCRITOR@: fui educada na lida, para ser profissional dentro de um campo escolhido, eu tive sorte ao nascer em uma família em crescimento mesmo que nos anos agressivos da ditadura - tempo do golpe militar - por segurança saímos do centro da cidade de São Paulo, onde morávamos - para a periferia - em meados de 1964, eu tinha apenas 2 anos - há tantos flashes destes tempos ainda em minha memória, tantos recortes.

Não foi fácil não tem sido, tem sido sim de rompantes e rupturas, descontinuidade minha carreira na área que escolhi. Letras-Português-Inglês e respectivas Literaturas com especialização em Sociologia.

Obriguei-me a desprendimento dentro do contexto que vivia: papai funcionário público federal, mamãe professora primária – secretária - a poeta da casa. Havia muito trabalho – energia - aplicada nos estudos, em leituras - as mais ecléticas - em livros todos que precisei e os que se não esperava em minha felicidade clandestina para e quando tivesse condições para adquirir, emprestar, trocar. Tem sido de trocas e extrema criatividade minha vida ainda hoje - ainda agora.

Não fui educada para o glamour nem mesmo para o reinado de ninguém. Não me lembro de ter ouvido na infância a palavra “príncipe encantado”, sequer lido a respeito. nem mesmo na adolescência. Papai e mamãe contavam-nos histórias de gênios e gigantes em terras distantes. Uma alegria, contação de história-oral. Não havia livros em casa. Acredite se quiser. Uma enciclopédia, lembro-me quando papai comprou para nossos estudos: livros pesados e que usei muitíssimo.

Depois que mamãe faleceu em meados dos anos 70 - aí muito menos - a educação se deu em ambiente caseiro com muita autonomia - eu era um moleque aos onze anos - entre os outros 3 moleques - lavar passar cozinhar estudar, varrer fazer provas tudo junto misturado por longos três anos. Mas da solidão ninguém nos falava, porque a conhecemos na pele na luta e todos sabiam. Professores, parentes e amigos próximos. Nos protegiam amigavelmente. Eu a própria gata - borralheira.

Investimento em meus estudos eram feitos à risca e apenas para o necessário - éramos quatro - mais tarde ganhámos uma irmãzinha de um segundo casamento de papai três anos mais tarde.

Estudar era uma exigência em casa, tirar notas e aplicar-se em experiências paralelas sempre bem-vindas, mas com recursos escassos. Tínhamos uma vida digna e absolutamente realista. Sim era sim e não era não. Limites bem definidos e sem muito questionamento.

Alguns cursos e outras viagens de estudo investi mais tarde quando já professora - mulher independente e de retorno a cidade de São Paulo – após formada. Tinha lá minhas 64 horas de trabalho bem remuneradas com carteira assinada na indústria da educação - colégios e pré-vestibulares. Eu era uma operária padrão - sim padrão.

Tenho a mais triste de minhas frustrações que foi - a impossibilidade - de término de minha tese em mestrado em Comunicação e Semiótica - a segunda turma do curso na PUC - ano de 1986. Minha tese seria em Poética e Política. Neste momento Sarney da vida, escolhi mudar-me para Santa Catarina - Florianópolis. Já que parte do núcleo familiar se mudaria por conta da violência urbana e poluição em São Paulo. Eu desejava muito formar uma família. Completaria 30 anos era procedente. Fui para Floripa muito forte como mulher economicamente independente e com formação completa, um currículo excelente. Em Floripa convivi em relacionamento profissional e familiar abusivos. Claro que eu iria sucumbir dez anos mais tarde. Conheci o machismo por todos os seus descaminhos - este que viria a ser o tema de meu primeiro romance - em formato contemporâneo. Um quase feminicídio. Este “quase” a parte mais importante da obra. Minha segunda chance - esta consciência expandida do quase morte - des[vida.

Assim, estar em uma festa literária, em uma feira de livros, sem querer ser dura - inflexível por demais é trabalho, o trabalho sensível das abelhas-operárias, colhendo ali o néctar - a sobrevivência literalmente. A segunda chance é um presente, é um estado de graça – não há palavras para tanta gratidão. Talvez o conjunto da obra que há anos formato possam deixar estes rastros construídos. Talvez.

Tem sido super enriquecedor estes dias nesta cidade sulfurosa, cidade mineira de Poços de Caldas, um dia após o outro tecendo de modo muito natural e espontâneo as possíveis relações entre o universo do leitor do escritor, dos editores neste que aos poucos invisto muito mais tempo que dinheiro, com foco no mercado de produção eletrônica, os e-pubs. Duty Free_2000/14 é um romance eletrônico - vendas em plataformas digitais, lançado através do selo Símbol@Digital-2014

Este campo de atuação que escolhi e penso também ter sido escolhida para atuar/trabalhar é assim... esta ação que é ler, escrever – revisar revisar - criticar-me/editar , propagar, ler, escrever, viver propagar, ler&viver, ler&ser entre outros - neste que é em minha vida - o segundo golpe - o Golpe do Sistema Jurídico Midiático - #foratemer.

Muita depressão para zero premiação - resistência e alguns presentes - sublimes presentes.

“Fatos e fotos na linha do tempo em encontros e desencontros dos mais sinceros:
nós os poetas, eu de passagem na tessitura do pleno - talvez conceito
Escritos a[penas daquilo que nos revelam - intactos: a ilusão de ser
nó em nós nessas fractais fragrâncias como altas estrelas dançantes
quase quasares além tempo-espaço poïesis encanto-assombros
em possíveis ondas telúricas neste plano terreno “ 

do poema a Casa Azul-2016

Lembrando:

"Temos então as técnicas de produção, as técnicas de significação ou de comunicação, e as técnicas de dominação. Fui me dando conta, pouco a pouco, de que existe, em todas as sociedades, um outro tipo de técnica; aquelas que permitem aos indivíduos realizar, por eles mesmos, um certo número de operações em seu corpo, em sua alma, em seus pensamentos, em suas condutas, de modo a produzir neles uma transformação, uma modificação, e a atingir um certo estado de perfeição, felicidade, de pureza, de poder sobrenatural. Chamemos essas técnicas de técnicas de si.


Michel Foucault. Sexualidade e Solidão. In: Ditos & Escritos v.V: Ética, Sexualidade, Política. Trad. Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p.95