domingo, 10 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... SÍLVIA SCHMIDT (IV)

Comoção

Foi de comoção minha experiência após ler Canção da Liberdade de Jade Rainho-moça linda que conheci em seus e meus tantos caminhos nas estradas da existência. Em uma manhã de Domingo dia de feira -na pequena vila de Caeté Açu no Parque Nacional da Chapada Diamantina-BA- ano de 2014-15. Foi uma conexão imediata. E depois na Festa Literária de Paraty ano em que as mulheres em auto publicações tornaram este evento um dos mais impactantes e inclusivos- a festa como festa na FLIP 2017.
Jade ave transformando vida em versos ousados [a fuga do centro do conforto]
ao mirar novos lares e universos [a transformar e transmutar-se] em canção em ritmo em criativas janelas.
Quando da primeira leitura o sentimento foi tal que precisei parar de ler este livro de poder- meus olhos eram apenas lágrimas em cascatas- o que deveríamos ser.
Cascatas, rios riachos e flores aves e afetos em versos encaixados encadeados ritmos das canções d’almas- pachamamas- peregrinas e viandeiras. Elaborados em sua visualidade em espaços também livres na folha de papel pólen bold 90G- folhas que a escolheram e escolhidas foram por suas mão de poeta: “Um livro Mágico feito de aprendizados como ela mesma nos lembra em sua contracapa
– ela uma - andorinha dourada- “abrigando entre as asas pedaços do céu”.
Agora em minha segunda e completa leitura – neste final de beleza pungente – eu sucumbi novamente a esta comoção a esta voz plena em pausas em explosão.
Coube-me neste universo nestes cantos o mundo aos quais ela generosamente nos transporta:
Vêneto, Itália verão de 2009
Cuyabá outubro de 2010
Ponta da Liberdade, Algarve Portugal
Porto Alegre
Penápolis
Budapeste
Largo Santa Cecília, centro São Paulo
Ligúria, Itália
Caeté Açu verão de 2015[aqui nosso tempo e nosso espaço de encontro]
Nestes lugares o seu tempo-espaço de vida [a física quântica nele inscrito]
“na impulsão original
inaugura a nova física
ilumina os mistérios
do cosmos”
Jade Rainho um pássaro de asas quebradas sua alma sua palma porque acrescenta na forma no sentido nesta amplitude impensável em um livro pocket- imensidões e potências reavivadas em significados. E a janela então seus braços abertos sua inteligência concreta [trabalho com o sentido visual- significante- a parte material do signo linguístico] em
] ] ] ] ] ] ] ] ] ] abro a janela [ [ [ [ [ [ [ [ [ [
Assim como em O APRENDIZ DE SIGNIFICAÇÕES
OU PALAVRAS REGADAS AO VENTO
Para Manoel de Barros
Livro síntese Canção da Liberdade versos universais abertos para o Amor
“Amor maior que mentira de pescador” que síntese essa- que síntese- neste
vasto repertório metalinguístico [espanhol inglês tupi guarani grego italiano]
enfim poiésis no sentido platônico [“ poiésis expressa o sentido geral do verbo poiéo,
que significa produção, fabricação, criação.
Livre e leve como uma pena- presente na obra.
Gratidão [somente para os que entendem]

Por Sílvia Schmidt
escritora editora poeta

Referência neste link



sábado, 9 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA (XI)

TPM

Sei que mulher é bicho estranho mesmo. Esquisito. Uma doideira. Quem quiser que tente entender. Eu, por ser uma, não me dou a esse trabalho. Às vezes chego a ser hilária sem nem me dá por conta. Mas, especialmente alguns dias no mês, realmente, a “porca torce o rabo”. Num dia como esses, tive um acesso; isso mesmo, aquilo foi um acesso de raiva, uma explosão, uma não sei o quê e nem por que. Comecei a falar, falar, falar... reclamei até das chamadas do telejornal. No dia seguinte meu filho perguntou se estava melhor. Perguntei:

- Melhor de que meu lindo? (na maior calma do mundo)

Ele falou de tudo que eu tinha dito no dia anterior e realmente vi que ficou muito preocupado. Então procurei explicar da melhor forma que pude, o que era TPM. Ele ouviu, perguntou e aparentemente, entendeu. Fiquei feliz por ter conseguido explicá-lo. Depois de alguns dias, ouvi perguntando a avó se ela tinha TPM. Ela sorriu e perguntou se ele sabia o que era isso. Ele disse que sabia, que a mãe havia explicado. Então perguntou o que era. Ele disse:

- Terrorista, Poderosa e Monstruosa. 

Fiquei arrasada!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ADRIANA APRESENTA... MANUEL MACHADO

Sensibilidade a flor da pele, humanismo e solidariedade. Essas são as palavras que definem Manuel Machado, que traduz não só em palavras, mas em sua forma de estar no mundo,  o sentido máximo de expressar a poesia em todas as suas vivências. Com talento e uma forma leve, discreta e sutil de se integrar por onde passa,  faz desse autor uma pessoa para não só ler, mas também para se admirar.

Manuel Jorge Machado Barqueiro, nascido no Porto por mero acaso, criado em Luanda-Angola, vivido em Lisboa, respira em qualquer sítio do mundo. Bancário de profissão já reformado, actualmente voluntário e cuidador por devoção. É terapeuta de reiki e dedica-se com forte fascínio pelas filosofias budistas. Tem participado de algumas antologias e lançou o seu primeiro livro O QUE A MINHA CANETA ESCREVEU, parte da coleção STATUS QUO coordenada por Emanuel Lomelino, em 2017.

“Há quem guarde as memórias e quem necessite relembrar histórias para colocar pontos finais no passado. O QUE A MINHA CANETA ESCREVEU, é uma forma de encerrar algumas histórias, relembrar outras com saudade e retornar a locais do passado que a memória foi incapaz de apagar, numa viagem, com muitas viagens dentro, sem distâncias nem tempo.”

A ASSESSORIA LITERÁRIA da In-Finita agradece o apoio e carinho deste autor, que veio somar e partilhar vivências.

Podem acompanhar o autor neste link 


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE

M. P. Bonde lança A DESCRIÇÃO DAS SOMBRAS 

A Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo,  lançou nesta quarta-feira, dia 06 de dezembro, o livro intitulado “A descrição das sombras”, da autoria de Macvildo Pedro Bonde ou M. P. Bonde, como é conhecido,  é resultado da primeira edição do prémio Fundação Fernando Leite Couto.

Segundo Bonde, o livro é uma prosa poética dividida em quatro momentos. No primeiro, terceiro e quarto, o poeta fala de seus “eus” e daquilo que apoquenta a sociedade. No segundo momento, fala do amor. “Não vale apena só falar de mim, mas também olhar para os males que apoquentam a sociedade que também sou membro. E como cidadão, tenho também de manifestar a minha simpatia ou não perante a sociedade”, referiu.

Este é o segundo livro de Bonde, depois de “Ensaios Poéticos”, lançado em Março deste ano. Por isso, nos próximos tempos, o poeta quer apenas deixar que as suas obras ganhem própria vida. “Neste momento tenho sete projectos terminados, mas o processo de publicação é outra coisa. E depois de ter dois livros em um ano não estou muito agora preocupado em lançar um livro. Estou num período `sabático´ de ponto de vista de publicação a não ser que seja aliciado por um projecto interessante. Tenho que deixar os livros ganharem a sua vida e as pessoas também consumirem”, referiu Bonde.

Biografia do Autor:
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JoAC) Jovens e Amigos da Cultura entre 2003-2004. Em 2004 é convidado para fazer parte do grupo Arrabenta Xithokozelo onde animam as noites de poesia e música no Modaskavulu do Teatro Avenida. Tem textos publicados na colectânea Arqueologia da Palavra, e em revistas electrónicas.
Em 2017 lança a sua primeira obra literária Ensaios Poéticos pela Cavalo do Mar. No mesmo ano é agraciado com o prémio Fundação Fernando Leite Couto com a obra A descrição das sombras, na sua primeira edição.

Podem acompanhar a página do autor neste link

E a fonte de divulgação neste link 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ADRIANA APRESENTA... MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

Um sorriso acolhedor e um olhar de simpatia, Maria Antonieta Oliveira é daquelas pessoas que de imediato queremos permanecer ao lado. Essa foi a primeira impressão que tive, ao conhecer a autora e com o passar dos dias, a mulher. De opinião firme, mas sensata, de alegria genuína , mas feita de lutas, batalhas e dores. Também é a expressão da superação, da garra, da coragem e do entusiasmo. Sensível e forte. E com o dom da palavra escrita. Do ser poeta.

E para exemplificar, transcrevo a sinopse de SENTIRES POÉTICOS, seu mais recente lançamento parte integrante da COLEÇÃO STATUS QUO:

As experiências proporcionadas por encontros e desencontros, alegrias e tristezas, conquistas e frustrações, ânimos e revoltas, explicam a vida. O amor, a paixão, a solidariedade e o humanismo, são o tempero da própria vida. O medo, as angústias, as desilusões e desencantos são o preço por viver-se.
E a pena da poeta, qual cineasta, oferece-nos uma película de palavras que nos ilustra a vida, dando-nos a conhecer os seus sabores e o preço que temos de pagar por vivê-la.

Apresento e aproveito a oportunidade para agradecer a confiança, o apoio e o acolhimento da mais nova integrante da ASSESSORIA LITERÁRIA feita pela In-Finita:

Maria Antonieta Oliveira nasceu a 17 de Junho de 1948 - Colaborou em mais de cinco dezenas de antologias e colectâneas. - Foi autora da marcha popular do Vale Grande (Pontinha-Lisboa) nos anos de 1995 e 1996 - Em 2011 publicou o 1º livro de poesia intitulado “ Galeria de Afectos “ sob a chancela da Temas Originais - Ganhou o 2º prémio no 1º concurso de poesia da Associação Cultural DRACA – Palmela (2011), com o poema “Calceteiro”. - Em 2012 publicou o 2º livro de poesia intitulado “Encontro-me nas Palavras” sob a chancela da Temas Originais - Em 2014 publicou o 1º romance intitulado “Para Além do Tempo” sob a chancela da Chiado Editora - Em 2017 publicou o 3º livro de poesia intitulado “Sentires Poéticos” sob a chancela da Edições Vieira da Silva Prefaciou vários livros de outros autores. Apresentou o livro Impulsações do poeta Emanuel Lomelino.

Podem acompanhar a autora neste link

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES (XI)

Tragédia número 4

Quando ele se casou achava que seria ou pensava que estaria casado a vida inteira ou que seria para a vida inteira.
Ele que se lembra no verbo lembra em primeira conjugação ar do substantivo casamento. Ele que sabe que na raiz o substantivo casamento aponta para um terreno com habitação instalada.
Ele tomado pela palavra casamento em sua raiz casamentum. Ele sentado naquele terreno com habitgação instalado a olho para um lado e para o outro e a pensar na sua grande conquista. Ele que no fundo de sua alma queria o melhor para si e para a tal esposa que o traiu friamente no verbo trair. Ela que disse que iria esfriar ou ser indiferente ao mesmo caso ele não conquistasse mais bens materias no substantivo vida que aqui pode funcionar como sinônimo de existência.
Ele que agora apresenta considerável protuberância abdominal devido ao fato de que teve que engolir sapos durante toda sua existência. Ele que sente em seus pesadelos os sapos entalados em sua garganta. Ele que em seus pesadelos noturnos ouve do verbo ouvir alguém sussurrar em seus ouvidos a expressão popular- Uma hora a cobra vai fumar-.

Ele que já desconfiava da tal esposa faz tempo. Ele que já desconfiava da esposa antes mesmo de se casar com a referida. Ele que nunca goitou do substantivo traição. Ele que sabe que a tonicidade neste caso recai sobre última sílaba.

Ele que recebe um telefone em sua nova casa de alguém que pergunta sobre sua mulher adúltera. Ele que indaga ou pergunta ou quer saber de forma desesperado quem está falando do outro lado da linha. O tal alguém enquanto pronome indefinido que não quer se comprometer com nada. O tal alguém que desliga o telefone e que não ousa ligar mais haja visa o fato de que,

Ele que não tem coragem de comentar tal coisa dias antes do casamento.
Ele que no fundo de sua alma pressente que algo terrível pode acontecer.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO (XX)

Que se come frio


Eu sempre achei que seria recompensada por todas as minhas perdas. Eu teria compensações por merecimento de dor absurda. A vida levou meu pai e mãe naturais, depois levou meus pais adotivos e meu irmão adotivo, depois levou minha casa, minha Ilha, a casa de Tambor de seu Bernardo, levou também meu sotaque, minha saúde, minha gente virando poeira na estrada da janela do Ita. Acordei no deserto de uma multidão desalmada. Achei que fosse o tempo de enfrentar o Demo. Não foi. Lá do alto de meu ego eu esperava os prêmios, as conquistas e o reconhecimento. Tudo vaidade. Eu era vaidosa de minhas perdas. Quando fui ser professora na periferia da periferia descobri o tamanhão do meu ego. Meninas e meninos que sequer conseguiam pensar sobre suas faltas. Eu tinha os livros e a literatura. Não era pouco, porque dava pra sustentar meus ombros de pé. Os meninos me ensinaram que a história não compensa ninguém se você fica esperando reparação. Era preciso fatiar o ego e comer aos pedacinhos, feito miúdos de porco. Chouriço de ego. A vida não te compensa, rapaz. É preciso ir lá e fazer a revolução sem rastro algum de piedade. É faca nos dentes e sangue nos olhos. Quando a carne esfria é que ela ganha sabor.  

domingo, 3 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... LÚCIO MUSTAFÁ (V)

ARTISTAS POR ANTONOMÁSIA: COMO SER FORA DE SÉRIE COMO EU

Existe um preconceito pseudo-acadêmico, implantado há um certo tempo nas mentalidades, que diz que "tudo já foi dito" e que portanto não nos resta nada mais que escolher entre as opções existentes e nos conformar para, pelo menos, contribuir com a divulgação do "melhor" dos mundos possíveis que, na prática, não passa desse péssimo mundo que prepararam aí para a gente.

Felizmente nem todos são tão carentes de percepção para se renderem a tamanha má intenção aplicada em relação à capacidade criativa dos indivíduos e rebelam-se contra tal imposição. Esses rebeldes maravilhosos são, precisamente, o que chamo no sentido lato de artistas por antonomásia.

As características de tais personalidades raras, nos dias correntes, são: genialidade, percepção, alta capacidade estratégica, visão panorâmica da realidade, autonomia de opinião e coragem. Elas são raras não tanto por se tratarem de superioridade de nascimento, ou de raça, ou social, mas por se tratar de um tipo de resiliência espontânea e invulnerável às maquinações de elites acadêmicas, marqueteiras e políticas. Se tais determinações exógenas não existissem todos os seres humanos seriam igualmente dotados daquelas características, mas, infelizmente, a realidade é bem outra. Enquanto a libertação total não ocorre, faz-se mister que quem se encontra em condições reais de assumir tais atitudes se engaje imediatamente, aproveitando a ocasião de estar em contato comigo, assim posso propiciar-lhes uma formação básica, inédita e não disponível de outro modo.

O que trago comigo é um tipo de conhecimento especial, altamente comunicativo e capaz de dialogar com a parte da alma mais genuína que vive nas pessoas. É um conhecimento assaz sui-generis por se tratar, precisamente, de uma elaboração filosófica não existente ainda na história. Se trata, na verdade, da filosofia do futuro, que se estabelecerá quando o ser humano superar esta crise de "adolescência" que o tem feito entrar em conflito com a sua própria capacidade de raciocinar.


Adiante-se aos tempos e engaje-se agora mesmo, neste modo novo, revolucionário e ético de pensar e agir no mundo. "Quem sabe faz na hora, não espera acontecer".

sábado, 2 de dezembro de 2017

ADRIANA APRESENTA... PATRÍCIA PORTO

A autora Patrícia Porto apareceu como aquelas boas surpresas quando se faz um trabalho com carinho e dedicação. Convidando uma amiga para apresentar o seu recém lançado livro, na região serrana no estado do Rio de Janeiro, há mais de dois anos, tive o prazer de conhecer a Patrícia que, de imediato, subiu a serra, com o seu Diário de Viagens para Espantalhos e Andarilhos, para fazer uma dobradinha com a autora convidada. E foi nesse entardecer mágico e num bate-papo envolvente que a autora me encantou como leitora e divulgadora e... fixou permanência na minha vida, agora também como aquelas amigas que quase não se vêem, mas o carinho e admiração são alimentados pelas redes sociais, devido à impossibilidade geográfica para aquele abraço e um ou dois cafés bem quentes. Acompanho a trajetória dessa poeta, escritora, guerreira e linda mulher pelo trabalho que exerce, dentro e fora do circuito literário, no qual tenho imensa admiração. Agradeço o carinho de sempre e a confiança em meu trabalho ao aceitar que a In-Finita faça a sua assessoria literária.

Abaixo um texto de Ricardo Gualda sobre a autora.

CABEÇA DE ANTÍGONA - RELEASE

Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma triologia poética.

Importante dizer que não se trata de memória ressecada, emoldurada ou de ninar. É a memória que nos faz o que somos e que pode surgir a cada decisão que tomamos, a cada ato do nosso dia a dia. Para Patrícia Porto, a memória é o passado – é uma passagem.

Sobre Pétalas e Preces (201X), seu primeiro livro de poesias, trazia memória como fundadora de ciclos e urdidora de ritos de passagem. Parafraseando o termo “romance de formação”, podemos dizer que os textos apresentados são “poesia de formação”, em que a poeta se apresenta em sua maturidade artística.

Diário de Viagem (2014), o segundo título, é uma experiência a que a autora se propôs. Num ano de perdas e lutas, Patrícia Porto escreveu um diário poético em que não se permitiu correções e reescrituras, em que não deixou que o trabalho estético pusesse sombra sobre o que a poesia é, em seu grito inicial. No livro, a memória surge como horizonte. Em Diário de Viagem, a memória não fica. Ao contrário, é o único lugar possível à frente.

E chegamos à CABEÇA DE ANTÍGONA. Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.

Ricardo Gualda

Onde encontrar:





sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES (X)

Tragédia número 3

INTENÇÃO EXPLÍCITA NO CAPÍTULO 1 – JANTAR PREPRARADO PARA ESPOSA. FRACASSO MARIDO TEM QUE COMER O JANTAR SOZINHO, pois a esposa confessa que traiu o marido. MARIDO ASSASSINA A ESPOSA DE FORMA FRIA COM ARSÊNICO.

INTENÇÃO EXPLÍCITA NO CAPÍTULO 2-  SER INDIFERENTE AO ATO COMETIDO, QUAL NÃO SEJA, AO ASSASSINATO DE SUA ESPOSA. FRACASSO – NÃO CONSEGUIR ELIMINAR DA MENTE A TAL LEMBRANÇA DA ADÚLTERA EM QUESTÃO.

Bem, o verbo enforcar que foi suado no final da tragédia número 2  deve ser usado ou pode ser usado ou provavelmente ser usado, levando-se ainda em consideração o fato de que o uso de Bem e mais a vírgula literalmente no início do parágrafo sugere pausa para articulação ou em nível de articulação de pensamento.

Consequentemente
O verbo enforcar diz da relação

Ou aponta para a relação entre Jesus e Judas no sentido de que por trinta moedas de prata ele Judas Escariotes trairia Jesus.

Ele então se vê naquela cozinha ao lado de Apóstolos imaginários conversando com Pedro e com Judas e aquela adúltera e pensa ou reflete ou alguma voz em seu ouvidos sussurra a expressão popular –farinha do mesmo saco- e ele entende que Judas precisa fazer o que deve ser feito para se livrar do jugo romano e com a conivência do Messias assim o faz e percebe o quão decepcionante é a postura do mesmo frente os seus inimigos e assim ele se desespera e põe termo à sua vida e ainda o fato de que Pedro nega o mestre 3 vezes e mais aquela mulher que o trai friamente e  ele que arrota intermintente a conjunção e e que a mata acolhido pelas vozes de Judas Escariotes e de Pedro e ele que agora adentra o  substantivo igreja e que nunca esteve sentado à mão direita de Deus Pai todo poderoso e mais o fato de que ele não ora e não sabe em que pensar,

Ele enquanto algum nome próprio ou pronome naquele lugar vazio, ele oco como qualquer coisa oca a ouvir as vozes de Judas Escariotes e de Pedro  sussurando coisas estranhas em seus ouvidos quando do assassinato de sua esposa naquela mesa ao lado do Messias e de outros apóstolos que por sua vez nunca estiveram onde estiveram.


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

AOS OLHOS DE PAULA OZ... MARIETE LISBOA GUERRA (II)

Paz no coração da Poesia, sua confidente.

Na pele dos seus poemas contemplamos o corpo do poema. A chave? A essência da Mulher – mãe, filha, amante da vida, amiga, espirito, criança inconsciente, alma apaixonada, astro de paixão, a terra e flor Jasmin, o mar e as conchas sem fim, a natureza e a beleza – na sua inquietude a calmaria do e perante o Universo. A asa do sonho em mel, o céu da realidade são rubras, majestosas, no reinado da sua poesia, as estrelas a doce e suave sedução que adornam o papel.

“O amor sem data e nem tempo”. Como fala e sente bem a autora, o abraço prolongado são os gestos anunciados para um grande amor. É a felicidade na brisa do vento. Gosto de a ouvir mas principalmente de a ler.

“Olhar-te-ei como se nunca e sempre
olhar-nos-emos como se fôssemos morrer”

A palavra silenciada é a metáfora adormecida onde vivem as emoções para viver ao encontro do rastro solar. É a viagem do mundo que beija a eternidade ao acordar.

Esquecida de tudo, a janela dos seus olhos é a consciência da sua alma. Por vezes a memória da mulher ou menina com tantas histórias. Para escrever poesia é preciso saber ouvir a poesia, é preciso ama-la. Mariete Lisboa Guerra ama, AMA tanto, que ela mesma é a mais pura inquietação de sentimentos numa ilha de palavras. A entrega é total.

“Metade da minha alma é consciência
se sou anjo ou diabo, minha aparência
como se um dom tardio fora na inquietação desta hora.”

A sua escrita é igualmente de uma riqueza literária enorme, em prosa ou em verso, a linguagem para além de sugestiva, é plena de vida, conotativa, metafórica, figurada, criativa, viajante! No cais nocturno do seu coração, navega na saudade, o amor numa canção, nas vivências do dia-a-dia e em prol da liberdade. Não posso porém deixar esquecido, as potencialidades da linguagem na poesia da autora, a sonoridade da linguagem, o ballet da poesia bastante peculiar, sendo diferente, emotiva e artística.

Mariete Lisboa Guerra tem o dom da expressão singular e com isso a capacidade de transmitir o enigma dos seus poemas, devemos porém ir sempre mais além, pois a sua voz é forte, é a voz que escreve nua, num grito à lua, a voz que chora ou dá um sorriso, é a voz que ama e dialoga, a autora não conversa com as rimas, a asa da letra nasce livremente. Uma chama interna e colorida, uma visão que embeleza o verso.

A autora oferece-nos a poesia numa beleza concreta, acidulada, como num espectáculo, basta apreciar e esperar o que poderá vir. Sentir e permitir que as emoções se libertem para voarem, prolongando os sentidos.

Mariete Lisboa Guerra possui a arte de dizer a palavra NOVA, cuida do seu jardim como a flor vive na sua pele.
Mariete Lisboa Guerra transpira, inspira e respira a POESIA.
Que esta sua caminhada seja um véu de estrelas, que as pétalas das rosas sejam perfume na estrada do sucesso, rumo ao mundo cultural.
Que o seu sorriso seja sempre o seu sorriso. A poesia sempre a sua POESIA.

- Sempre nasce uma grande escritora, de uma GRANDE mulher

“O meu amor é belo como um barco!”
Mário Quintana


Para a obra
Um dia houve poesia”


Mariete Lisboa Guerra



Paula OZ


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ADRIANA FALA DE... O SUSPIRO DE ODIN

O amor sonhado, idealizado, vivido ao extremo do sentimento. A perda, a insuportável ausência, a constatação do vazio. A fuga de si mesmo e de todas as contradições despertadas por esse amor. O desespero do esquecimento e a reconstrução. A desilusão. A percepção de que nada se é, sem a presença do objeto amado que o impulsiona para a vida, mas que se faz inexistente de forma e convivência. O limite entre o real e o imaginário, de um amor que ultrapassa o tempo e o incomensurável do desejo da alma e do corpo. Aquele que arrasta para a perdição, e tortura a alma, escurecendo os dias e a vida, e mesmo assim, preenche todos os vazios da solidão que se faz acompanhada por imagens e sonhos e pela busca do inalcançável. O bálsamo para os momentos afligidos, a esperança, a sobrevida, alimentada por lembranças. O abandono de si, a desistência, a tragédia interior, a morte.  Nunca o esquecimento. A segunda chance, o renascer, o conflito, a busca eterna. O deus ODIN que, como um alter ego, o conduz e acompanha na experimentação do que supostamente se faz inexplicável e, talvez, irreal. O diálogo, as cartas, a forma de escrita, com espaçamentos, com ritmo e espaços para pensar, sentir, questionar e continuar... O SUSPIRO DE ODIN, primeiro livro de João Dordio, arrasta o leitor nas primeiras linhas para um universo entre o místico e ao mesmo tempo o real, no confronto entre a subjetividade e o concreto de um romance misturado com a fantasia, a poesia e o eterno questionamento do ser e das tormentas causadas por uma paixão, talvez idealizada, talvez vivida, talvez inexistente. O leitor percorre com cumplicidade e distância, com emoção e surpresa, mas nunca com indiferença. O autor despe-se em uma forma muito particular de escrita, fugindo de regras e levando o leitor ao que realmente interessa: o mergulho no que há de mais íntimo no humano, o sentir.

Saibam mais do autor neste link

Saibam mais do livro neste link

terça-feira, 28 de novembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... LÚCIO MUSTAFÁ (IV)

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO HUMANOS

Das mídias sociais às relações interpessoais.

Todo canal de comunicação é passível de ser manobrado e se transformar num canal de alienação. Os veículos pelos quais ideias dos mais diversos gêneros são transmitidas são variados e se prestam para variados tipos de manipulações. Até na relação interpessoal uma pessoa pode exercer uma influência nefastas sobre outra. Com a queda do muro de Berlim, no mais, a intencionalidade do capitalismo em transformar a humanidade, em peso, em sua escrava psico-física se reativou e agora o computador está sendo uma ótima ajuda para ela naquela intenção. Vice-versa, cada indivíduo, grupo de amigos, mini organização pode se tornar na rede alguém que denuncie seus perigos e que proponha um uso realmente comunicativo e trazedor de maiores aproximações da verdade mesma.

mini-biografia: Lúcio Mustafá

Nascido em Barbacena (MG) em 20 de maio de 1961, passou a infância em Brasília e a juventude e vida adulta na Cidade do Recife. Viveu entre hippies, mendigos, favelados, numa fase na qual aderiu à teologia da libertação tendo participado do grupo de Don Helder Câmara. Viveu em Roma de 1994 aos albores do século XXI. Poeta, escritor de contos, de crônicas, artista plástico, filólogo pelo Institutum Altioris Latinitatis Romae e filósofo pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Lúcio Mustafá, que foi um dos fundadores do Movimento dos Realistas Urbanos, é criador da filosofia Panamorista, que se propõe a corrigir um detalhe esquecido por todas as outras filosofias que vieram antes dele, que é o detalhe de mostrar a possibilidade de Amor Incondicional do Ser Humano consigo mesmo e com toda a natureza. As influências de Lúcio Mustafá são várias e vão desde da literatura regionalista nordestina, às teses do Círculo Linguístico de Praga, à literatura e arte italianas.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

ADRIANA APRESENTA... EMANUEL LOMELINO


A vida é a arte do encontro e não tenho palavras para descrever o quanto ela foi generosa ao cruzar caminhos por entre o oceano. A parceria Toca a Escrever e In-Finita, foi um daqueles raros encontros em que o universo conspirou a favor de pessoas com o mesmo ideal e filosofia de vida. A caminhada em paralelo, um em Portugal e outra no Brasil, somou, agregou, criou laços, fortaleceu e uniu mãos, pensamentos e projetos, que agora, caminham em apenas um lado do oceano, sem deixar de manter a proposta inicial na divulgação lusófona.

O terceiro autor, convidado pela In-Finita assessoria literária, no qual tenho imensa admiração, não só pela habilidade e conhecimento com a escrita em geral, grande conhecedor da literatura e mestre em diversos gêneros poéticos, além de profissional e exigente ao extremo, questionador, determinado e convicto como autor e suas diversas facetas profissionais, e claro, hábil no improviso e com um toque de humor inteligente e irônico como apresentador, além de um ser humano generoso e solícito.
Tenho aprendido e amadurecido tanto como autora, profissional e pessoa com esse convívio e tenho a imensa gratidão pelo apoio e incentivo, nos projetos e na vida:

Emanuel Lomelino, nasceu em Camarate, Lisboa, membro activo em diversos eventos literários, apresentador, prefaciador, coordenador. Mentor do projecto, multiplataformas, de divulgação de poesia lusófona, TOCA A ESCREVER/INFINITA. Para além de participações em diversas antologias e tertúlias poéticas, já prefaciou e apresentou mais de duas dezenas de obras de outros autores, tendo sido convidado para moderador de eventos e coordenador de colectâneas. Esteve duas vezes (2014 e 2015) na Feira do Livro e Festa Lusófona de Genebra (Suiça) a representar a poesia portuguesa

Tem 7 livros editados. Membro da Academia Virtual de Poetas de Língua Portuguesa – secção de Portugal, com assento na cadeira Mário de Sá-Carneiro.

Divulgando a página do autor: AMADOR DO VERSO


Contato ASSESSORIA LITERÁRIA : adriana.mayrinck@gmail.com


domingo, 26 de novembro de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE (XIII)

O EXERCÍCIO DA ESCRITA: À PROCURA DA PALAVRA CERTA

Falar sobre a escrita é sempre um desafio. Embora, o meu ofício quotidiano passe por escrever os meus sonhos, angústias, desejos, reflexões do meu itinerário enquanto ser deste universo.

Quero desde já agradecer ao Kupaluxa que por meio do Quive endereçou este convite. Não é todos os dias que conversamos sobre a escrita e seus dilemas. Quando há algumas semanas abordoaram-me sobre esta mesa “redonda” não hesitei, mas cogitei com os meus botões em relação a esta hercúlea tarefa de pensar a literatura.

O adiamento em virtude do Adelino Timóteo estar na capital e ser um meio de conhecer este poeta das terras do Chiveve, serviu de escape para revigorar a minha ideia da palavra lida e escrita, embora, não tivesse recebido o tema para o nosso debate aberto. Mas, passado dias, vi o cartaz com muitos “likes” a ser partilhado por confrades da mesma trincheira e amigos.

Devo sempre vincar que Moçambique é um país de grandes referências na literatura seja em prosa ou poesia.

Para iniciar estas minhas breves palavras vou citar um autor que tenho muito gosto em ter conhecido a sua escrita. Não teve a sorte de ganhar o Nobel, mas continua a ser esse farol que alguns críticos literários acham que houve injustiça.

Jorge Luís Borges, escritor argentino com muitos cruzamentos na sua essência de ser. Como diz o autor: “Sempre imaginei que o paraíso seria algum tipo de biblioteca”. Esta frase remete-nos a leitura, alimentar o nosso desejo de conhecer o mundo em que vivemos. Não há escrita sem leitura. O autor do livro “Fricções” é um exemplo dessa forma de pensar. A partir de uma enciclopédia o autor transporta-nos a um mundo imaginário com a qual constrói o seu texto.

O autor invoca a biblioteca como paraíso. Logo, a leitura aparece como um elemento fundamental para a palavra certa. Mas, não é sobre fricções que estou aqui. “Para escrever é preciso ler e saber onde se encontra a essência dessa forma de expressão”.

A minha palavra certa passa por muitas influências (nacionais e estrangeiras). Daí que existem autores que não posso deixar de mencionar na minha viagem ao mundo a escrita: Rimbaud, Baudelaire, Pessoa, Knopfli, Alba, Kavafis, entre outros para falar de poesia, meu campo de eleição.

Em função de cada projecto em manga, sigo a dinâmica de certos autores. O último projecto acabado teve como marcos: Francis Ponge e António Gamoneda. Voltarei a Ponge nos próximos parágrafos.

Para responder ao tema “O exercício de escrita: à procura da palavra certa!” Tenho de regressar a Rainer Maria Rilke e a sua resposta a um jovem poeta.

Diz Rilke na resposta ao jovem: “Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso” (Rilke, 2009:9) .

Ou seja, o que nós trazemos a este universo literário? Será que deixar de escrever o mundo deixará de ser esta Odisseia? Para Moacyr Scliar, o acto de escrever é uma continuação do acto de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

Assim, percebo que não podemos ter uma escrita sem uma leitura continuada, sem aprimorar o nosso desejo ardente da palavra, a métrica, a metáfora e outros elementos que nos podem conduzir ao óptimo de um texto em prosa ou poesia. Afirmei antes que voltaria a Ponge porque a estória do seu livro Savon é interessante. Eu fiquei cerca de 4 anos para tirar os ensaios poéticos e não posso deixar de ficar de alguma forma satisfeito porque permitiu-me ter alguma maturidade estética.

Ponge em carta a Jean Paulhan – amigo e editor Ponge, quando começou a escrever Le Savon (Sabão), partilhou sua angústia e dificuldade em terminá-lo. Chegou a pensar em abandoná-lo, mais de uma vez, e persistiu escrevendo e revendo o texto durante vinte e cinco anos (de 1942 a 1967, data de sua publicação). É facto, que alguns poetas insistem em alguns escritos sem saber bem o porquê. O que é da ordem da pulsão faz seu espaço no “que não cessa de não se inscrever”. Ou seja, no que pode ser nomeado como algo da ordem do impossível, que insiste.

Jacques Derrida disse que Ponge assumia, neste escrito, uma perda não declarada até então. Pois, o que ele falava havia sido “esquecido” por muitos de seus contemporâneos. Hoje podemos remexer nestas letras, e pensá-las como um desejo de testemunho. E, ainda podemos perceber que o poeta escreveu um texto para além do poético. Algo que, em meio ao impossível de se dizer, fizesse ruídos em orelhas torturantes .

A palavra em acto na intenção de produzir uma luz, que possa fazer buraco na memória. Assim estamos na trilha do real, e do faltoso; o que não pode ser dito todo.

Como podemos perceber, para o autor o texto não estava ao nível do que pretendia tendo levado cerca de 25 anos para atingir o seu desejo.

“(…), quando pensamos, quando escrevemos, somos habitados pela presença. Não só a presença física dos que nos acompanham, mas a imponderável presença do invisível: das vozes que ouvimos, dos poetas e escritores que lemos, de tudo aquilo que nos habita e se demora em nós, mesmo que não nos apercebamos. Estar a sós diante da página em branco nunca é uma verdadeira solidão, para combater um certo lugar-comum que persiste. É sobretudo um acto de escuta e de abandono, em que procuramos esse rio interior ou a voz que nos persegue, aquela que procura a sua fenda, a fissura, por onde entrar e fazer-se corpo, linguagem, um modo de se dizer e de chegar à fala, atravessando os tempos”, Maria João Cantinho (2017) .

É necessário ter prazer ao escrever, deixar o sentimento, o gosto pela palavra, pelos sons, ritmo. Roland Barthes (1996:9) fala do prazer do texto. “Um texto lido com prazer significa que foi escrito com prazer. Mas, o prazer de escrever não assegura o prazer do leitor no acto de ler, pois a recepção do texto dependerá de cada um. É preciso haver, haver então um jogo de entre escritor e leitor, um espaço de abertura fornecido pelo narrador que permita a entrada do leitor no texto”.

No acto da escrita exige inspiração e transpiração. Ao escrever, busca-se eventualmente um “algo a mais”, aquilo que possa transcender o próprio escritor, aquela busca ancestral de deixar para a futura humanidade outra lembrança que não sejam filhos ou árvores.

Para concluir, a minha experiência tem demostrado que o texto fala quando já está acabado. Há uma certeza em nós, um frio no estômago, umas lágrimas que passeiam de satisfação pela íris.